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  • Foto do escritorRosiane Rodrigues

Atraso no desenvolvimento escolar pode sinalizar autismo

Atualizado: 25 de set. de 2019

No Pará, em 2018, foram matriculados 1.231 alunos com o diagnóstico. Especialista destaca a importância da percepção dos pais e da escola. Detectado o transtorno, a criança precisa de tratamento e terapia.


Crédito: Rosiane Rodrigues.

Com o início do ano letivo, vem a pergunta: como está o desenvolvimento escolar do seu filho? É importante que os pais realmente estejam de olho nisso, pois há casos em que o atraso escolar se dá por conta do autismo.


No Pará, foram matriculados 1.231 alunos com o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista, em 2018, segundo a Secretária de Educação (Seduc), mas há alunos que apresentam os sintomas e que precisam da sensibilidade do olhar dos pais e professores, explica Karina Medrado, neuropsicóloga atuante no diagnóstico e tratamento do autismo.


A especialista disse que muitas das vezes os pais levam o filho ao médico e o profissional não fecha o diagnóstico de autismo e pede para os pais aguardarem mais um tempo, tardando o início da terapia. “Ou então os pais ficam pensando que em algum momento os filhos vão desenvolver-se sozinhos, e não vão. É muito importante ter essa conscientização”, disse.


Segundo Cintia Lavratti Brandão, psicoterapeuta e professora de psicologia da UNAMA – Universidade da Amazônia, o transtorno do autismo ainda é um desafio diagnóstico, porque até três anos de idade todos os sinais e sintomas podem ficar mascarados, mas nem sempre o ritmo incomum de aquisição de interações sociais e de linguagem significa que a criança seja autista. “Ela pode ser uma criança tímida, uma criança retraída, uma criança que tem algum distúrbio de linguagem, ou algum outro diagnóstico fonoaudiológico que não necessariamente o autismo”, afirmou a professora.


Para a psicoterapeuta, independente do que a criança apresente, de quais são as dificuldades que os pais reconhecem nas interações das crianças com o mundo, quanto mais cedo for identificado o problema, melhor, por dois grandes motivos. “Quanto menor é a criança, mais ela está suscetível à estimulação e a respostas positivas. A partir do momento em que se tem uma leitura diagnóstica, posso utilizar ações que minimizem o desconforto social e a adaptabilidade daquela criança e, principalmente, orientar os pais nas ações adequadas sobre as necessidades daquele filho”, detalhou Cintia.


O autismo não é uma deficiência, é um espectro, classificado como leve, moderado e grave. A especialista Karina Medrado explica que o déficit da linguagem, chamado de autismo não verbal, se caracteriza pelo não desenvolvimento da linguagem. Nesse caso, há estereotipias motoras, que são atos repetitivos como os chamados flaps - balançar as mãos - movimentar o tronco, além da ausência de contato visual. “O autismo é muito amplo e é muito subjetivo. Cada criança desenvolve um tipo de sintoma. Umas têm a questão da hipersensibilidade, ou a hiposensibilidade sensorial, que pode ter aversão a estímulos sonoros muito intensos, ou não sentem tanta dor. Quando a gente fala de estímulos, a gente sempre fala de todos esses aspectos”, afirmou.


O transtorno do neurodesenvolvimento tem 70% de origem genética, segundo Karina. “O cérebro não faz as sinapses de maneira funcional, como acontece no cérebro de uma pessoa que é típica, e as conexões inter-hemisféricas e intra-hemisférica também não acontecem da maneira adequada. Por isso ele tem vários déficits cognitivos na atenção sustentada, na atenção compartilhada, às vezes na linguagem, na parte motora e na parte sensorial”, esclareceu.


O diagnóstico em adolescente tem crescido nos últimos anos, explica Karina. O autismo mais leve, mais sutil, é considerado como a síndrome de Asperger.  “Antigamente existia uma divisão entre síndrome de Asperger e autismo. Com o novo manual de psiquiatria, o DSM 5 (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5.ª edição), foi englobado tudo num espectro. Então a Asperger, hoje em dia, faz parte do espectro autista”, explicou.


A especialista conta que quando a pessoa é diagnosticada na adolescência é porque, quando criança, não apresentava todos os sinais e sintomas. “A linguagem se desenvolveu da maneira adequada, não teve muita estereotipia motora, ela tinha mais uma questão de habilidade social. Quando isso acontece, lá na adolescência, na hora da interação, na hora de entender contexto social, aquele adolescente que é mais tímido chega ao nosso consultório com características de depressão e quando a gente vai avaliar, na verdade, apresenta critérios para autismo. Isso acontece muito com meninas, principalmente, porque meninas têm mais habilidades sociais desenvolvidas. O cérebro da menina é mais focado nessas questões de habilidades sociais”, observa a neuropsicóloga.


A adolescente autista é muita assertiva, diz Karina Medrado, tem raciocínio concreto e não fica no plano de raciocínio abstrato - aí que se dá a dificuldade de interagir e de entender esse contexto social, sinais que precisam ser observados pelos pais. “É aquela menina que não tem malícia. Ela não consegue compreender alguns contextos sociais, não consegue entender o tom de ironia, não consegue entender, às vezes, uma piada, não faz muito sentido para ela essas coisas”, disse Karina.


Diagnóstico


Cintia Brandão destaca que, em qualquer circunstância, seja do ponto de vista neuropsicológico ou interacional, o diagnóstico precoce sempre será um ganho. “Quanto mais cedo a criança tiver acesso a atendimento especializado para a dificuldade que ela apresenta, mais cedo ela pode construir respostas mais adaptativas e que minimizem o sofrimento, a exclusão, a angústia dos pais e a própria cobrança em relação à criança de aspectos que ela não pode oferecer como competência e também a possibilidade de não subestimar as capacidades e competências que a criança tem”, detalhou a psicoterapeuta.


Quanto aos sinais, segundo a psicoterapeuta, é possível perceber um déficit muito cedo, próximo aos seis meses de vida, por exemplo. “É possível perceber bebês que têm pouca resposta de sorriso social, uma criança que a gente olha e parece que ela está mais absorta no universo dela e com pouca resposta de um sorriso social quando uma pessoa faz uma brincadeira com ela. Outro aspecto importante é que a criança tem uma preferência por manipular objetos do que olhar e interagir com pessoas”, detalhou Cintia.


Essa manipulação de objeto acontece de forma atípica, explica a psicóloga. “A criança brinca com um carrinho não fazendo o barulho do carro, usando o carrinho como uma ferramenta de locomoção, ela usa o carrinho para fazer uma fila, ou para ficar vários minutos rodando as rodinhas, observando aquele movimento. A criança tende a ter, desde pequeno, movimentos estereotipados, há um atraso bem significativo na linguagem, e um déficit de busca espontânea por interação com outras crianças”, afirmou Cintia.


Segundo a psicoterapeuta, um dos sinais do autismo é a conduta motora da criança. Há possibilidade de que ela tenha hiperfocos, goste de ficar sempre fazendo a mesma coisa, com o mesmo tipo de brinquedo, desenho e movimento. “Não que a criança não possa estar com outras crianças e que em algum momento até busque algum tipo de brincadeira, mas a tendência é fazer isso de uma forma atípica. A criança tem uma dificuldade de interagir com os pares na sua faixa etária a partir das demandas das outras crianças. Gosta de brincar, de correr, de pegar objetos e não necessariamente com uma socialização que envolva uma perspectiva de coletividade”, informou Cintia.


Quando os pais identificam um desses três eixos, déficit de linguagem, alterações motoras e psicomotoras e de socialização, devem buscar ajuda especializada, que envolve geralmente uma tríade de profissionais. “Em primeira instância: fonoaudiólogo, neurologista e psicólogo ou neuropsicológo”, enfatizou Cintia.


O papel da escola


O diagnóstico é feito assim que os pais ou a escola identifica que a criança está apresentando um atraso no desenvolvimento. Esses pais devem procurar um profissional especialista no assunto. “O ideal é que seja feita uma avaliação neuropsicológica. Nessa avaliação, a gente consegue identificar se tem déficits cognitivos, como estão a atenção, a memória, a capacidade de planejar, impulsividade, incapacidade de executar uma determinada tarefa e avaliar o Q.I (Quociente intelectual) dessa criança também”, detalhou Karina Medrado.


No autismo moderado para o grave, o autista pode ter uma deficiência intelectual. “A terapia entra para trabalhar a estimulação cognitiva desses déficits e habilidades sociais, remodelar comportamento. Hoje a terapia mais indicada é a terapia comportamental, principalmente a ABA, que é a terapia de análise de comportamento. Você trabalha o tempo todo a estimulação com essa criança. A criança tem um tipo de comportamento, a gente reforça positivamente o comportamento que a gente quer que ela modifique, então é bem comportamental mesmo”, disse a neuropsicóloga.


Para Karina, os professores ainda enfrentam desafios, mas a dificuldade está diminuindo pela disseminação de informação sobre o espectro. “As pesquisas, artigos científicos estão aí para a gente ter muito acesso. O autismo já foi um grande tabu, eu sei que dar um diagnóstico de autismo, para muito profissional, ainda é muito complicado, muitos preferem aguardar um tempo. Para a escola, quando ela percebe que a criança não está dentro daqueles padrões do desenvolvimento da infância, ela precisa chamar esses pais, precisa orientá-los a buscar um profissional. Quanto mais a gente demora a iniciar essa terapia, mais atraso no desenvolvimento essa criança vai ter. Então, é um desafio que a escola tem, mas acho que hoje ela tem um pouco mais de recursos para lidar com essas questões”, declarou.


Para Rosiane Santos, pedagoga, professora da educação básica, que dá aula para crianças autistas, a base de todo trabalho se resume no amor. “Quando você acredita na potencialidade de cada criança, colocando em foco suas habilidades, tudo fica mais fácil. Quem não vai estar bem fazendo o que gosta? Além do mais, buscamos sempre descobrir através da anamnese, saber as preferências e gostos das crianças, como uma música, brinquedos, doces, enfim, o que possa servir de um provável reforçador na aprendizagem”, explicou.


Falta de informações


Segundo a neuropsicóloga Karina Medrado, faltam informações aos pais. Além disso, às vezes, há um pouco de resistência na aceitação do diagnóstico. “Você imagina, às vezes é o primeiro filho, e quando é o primeiro filho a gente não tem muito critério do que é o desenvolvimento esperado com seis meses, com um ano e assim sucessivamente. Muitos pais aguardam. Normalmente quem percebe que tem alguma coisa que não está fluindo bem é a mãe. Às vezes, quando a mãe vai comunicar isso para o pai, ou para algum outro familiar, a fala dela é desconsiderada”, explicou.


Para Karina, quando isso acontece, a mãe fica naquela situação de "será que eu estou vendo em excesso, ou realmente que lado tem razão?" e ela acaba esperando. “Entra a falta de informação dos pais, de aceitação, de que o 'meu filho tem, de fato, um atraso e eu preciso procurar um profissional, porque eu preciso entender a causa desse atraso, e se for autismo, iniciar um processo de terapia'”, afirmou.


O processo de terapia para o autismo é eficaz, explica a especialista, mas o sucesso só acontece se houver engajamento dos pais. “Pais que entendam o que é o autismo e que sejam treinados para trabalhar com o filho que recebeu esse diagnóstico. Procuro, na terapia, dez minutos antes de terminar a sessão, sempre chamar esse pai e mostrar o que foi trabalhado, mostrar o que a gente estimulou em cada sessão, porque eu vou ficar com essas crianças uma hora por semana e esses pais ficam todo o restante do dia. Eles precisam aplicar esses conhecimentos em casa para estarmos todos em conjunto. Não adianta pensar 'ah, vou levar na terapia e em casa deixo para lá', não vai dar certo desse jeito”, avaliou.

 

O tratamento


O tratamento do autismo envolve equipe multidisciplinar. Segundo a especialista, a pessoa mais indicada, no inicio do diagnóstico, é o psicólogo ou o neuropediatra para fazer essa avaliação e identificar se realmente fecha os critérios para o diagnóstico. “Depois a gente vai avaliar quais são as necessidades dessa criança, se ela tem questões relacionadas a déficit de processamento sensorial, se ela vai precisar do acompanhamento de uma terapeuta ocupacional; se ela tem a questão da linguagem, vai precisar do acompanhamento de uma fonodióloga; se tem questão motora precisa de uma fisioterapeuta. Realmente é muito em equipe multi”, explicou.


O médico entra na equipe quando o autista tem alguma doença. “O médico entra, às vezes, com a questão de medicação. Existem crianças que além do autismo tem uma comorbidade. Por exemplo, ela fecha o diagnóstico de autismo e de epilepsia, então o médico entra para fazer a medicação para controle de crise. Por isso que o trabalho em equipe multi, no autismo, é muito importante”, ressaltou Karina.


Karina Medrado explica que é muito difícil entender e buscar cura para esse tipo de transtorno, mas que os estudos estão cada vez mais intensificados. “Eu estava em um simpósio e o pesquisador brasileiro estava falando 'o que significa autismo? é o alvo em movimento', como a gente tem um espectro que é muito amplo de sintomas e características. Existem estudos genéticos que estão apontando, de repente, para qual o gene causador do autismo, mas tudo ainda em caráter de pesquisa, caráter cientifico. Por isso que o tratamento tem que ser realizado”, ressaltou. 


Quanto mais precoce for esse tratamento, melhor. “A criança tem o que a gente chama de neuroplasticidade cerebral, que é a capacidade de aprender. Por exemplo, quando a gente começa a estimular uma criança de dois anos de idade ela vai ter um processo de desenvolvimento muito melhor, que se eu começar a estimular uma criança de dez anos. Existe uma diferença muito grande aí. Por isso o tratamento tem que ser precoce e contínuo, ele é um processo”, disse a especialista.


A neuropsicóloga explicou que o plano de intervenção é muito subjetivo para cada criança. “Se eu tenho uma criança que tem comportamento reativo de agressividade talvez essa criança demore mais tempo em terapia. Se eu tenho uma criança que tem mais uma questão de habilidade social, é uma criança que vai ficar menos tempo em terapia. Então vai depender dos sintomas que essa criança apresenta para mim”, declarou Karina.

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